sábado, 12 de janeiro de 2013
O Beto
Fui criada na Rua Mariland - uma travessa da Cristóvão Colombo - perto da minha avó, dos meus tios e do meu melhor amigo - o meu primo Beto.
Eu era uma criança bronzeada do sol de tanta brincadeira na rua. A calçada era a minha casa, a motoca, meu primeiro meio de transporte e os meus amigos eram todos meninos, pois eu era um moleque de cabelos compridos. O Claudio, o Gilson, o Luciano, o Bebeto, o Lelo e o Beto dividiam as estripulias, as correrias e até algumas bonecas que eram arremessadas em alguma parede depois de algumas, das muitas brigas.
Todos eram muito amados - apesar de eu levar certos sopapos - e todos nós nos dávamos muito bem.
Porém, o menino que eu mais brincava era o meu primo. Montávamos uma pequena cidade de caixinhas de fósforos, onde nossas miniaturas de carrinho percorriam as estradas desenhadas de palitos. Lá, no doce pátio dos meus avós, embaixo dos parreirais carregados de cheirosas uvas, eu era feliz. Eu era dona de uma frota colorida que era guiada ao som da cigarra, em meio ao aroma adocicado de frutas maduras. Cavávamos a terra em busca de minhocas, brincávamos com o Bob - uma mistura de Pequinês e Poodle - colhíamos Alamandas do jardim, pilotávamos nossa bicicletas sem risco de sermos atropelados ou sequestrados.
Lembro, como se fosse ontem, da mão da minha mãe que se erguia na janela do primeiro andar do prédio onde eu morava, levantando o lanche da tarde - uma mamadeira de Nescau (pois é, mamei até tarde) que era sorvida, deitada no sofá, com os olhos fitando o teto dourado pelo sol de verão.
Mas nunca me esqueço de um dia, um dia especial.
Estávamos em meu apartamento, assistindo à primeira TV colorida da minha vida.
Minha mãe nos trouxe o almoço. Uma bandeja para cada colo.
Ali, no aconchego da minha infância, ouvi a frase que marcou minha vida, dita pelo Beto:
"Ah! Isso é que é vida, comida e TV colorida".
Beto, faz tempo que eu não te vejo.
Queria poder te dizer que a gente mal sabia que a boa vida das crianças do mundo estava no princípio do fim, pois a TV retirou o riso ingênuo das bocas diminutas. Encerrou uma etapa aonde meninos e meninas conheciam o seu bairro, mas não de dentro dos carros. Aonde o corpo era nossa principal ferramenta nas brincadeiras, aonde músculos eram exigidos, faces eram coradas, mentes eram indomadas e férteis.
Beto, nós tivemos o privilégio de sermos crianças felizes.
Hoje, a felicidade infantil virou um clique.
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