E então ela disse.
Pela primeira vez, a mais dolorida de todas.
"Você é um fracassado igual ao seu pai".
O corpo dele quase não se mexeu, como se a agressão tivesse passado despercebida, mas os olhos, sem que ela visse, se fecharam e as pálpebras tremeram ao som da voz dela, sempre tão doce, agora ácida.
Naquele momento algo se partiu dentro dele. Algo pequeno, mas com cacos afiados que lhe rasgaram a ilusão, lhe mancharam o álbum de suas lembranças aonde os dois eram imunes às palavras que só dizimam.
Mas eles eram felizes. Mais ela do que ele, pois para ela a raiva justificava quase tudo e o pedido de desculpas apagava marcas, pois eram apenas coisas ditas.
Mas o mundo inexpugnável deles agora tinha uma leve rachadura, porém perigosa. Nela, seres microscópicos, como as bactérias, rondavam, esperando a chance de algo se enfraquecer.
E a fenda foi sendo forçada cada vez mais, por brigas bobas onde ela lhe lembrava o quão parecido ele era com o pai. Ela havia aprendido a ferir, mas não a carne, e esperar o momento da cicatrização para ficar tudo bem.
E a fissura se tornou imensa e por ela já passavam monstros que se alimentavam dos sonhos dos dois.
O amor deixou de ser espontâneo, a amizade foi enfraquecendo a na relação turva e escura, os dois não se enxergavam mais.
Ele amou de novo.
Ela viajou para o exterior. Lá conheceu outro homem e nunca mais brincou com as palavras.
Ele casou. Teve os filhos que tanto queria e viajava todos os anos com a família para visitar o pai.
O pai que não via há dez anos.

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