sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Garoto que Assobia


Ela andava cansada.
Em uma semana onde chove lá fora e dentro do peito também, ela se dirige para mais um compromisso profissional.
Os olhos embassados, feito o vidro do carro, procuram os números quase invisíveis no manto denso da neblina.
Estaciona.
Senta na primeira mesa, de frente para a entrada.
A cafeteria cheira à torradas, flores e doces, e as luzes são amareladas. Faz frio.
O café é excelente, o atendimento também. Sorve o primeiro gole e parece se sentir bem. 
Está dedilhando o celular quando ele entra.
O garoto.
Ele vem assobiando alto, derretendo o frio de lá de dentro. Sem vergonha e sem receio de parecer inconviniente, como tantos de sua idade.
Estranho, engraçado, bonito isso.
O celular descansa na mesa e os olhos dela agora estão presos na boquinha que solta aquele assobio tão alegre que enche a pequena sala.
Meninos nesta idade são barulhentos, alegres, mas quando estão em turma.
O garoto avista outro garoto que está sentado perto dela.
Como não o vi?
Vai em sua direção com um sorriso aberto e senta ao seu lado. Liga o Laptop do outro, que estava desligado, e caem na risada. Começam a conversar e brincar na tela plana e colorida.
São parecidos. Irmãos? Mas irmãos riem tanto quando estão juntos?
Os olhos dela agora se dirigem à figura alta de um homem que entra na cafeteria.
Os garotos dão um pulo ao avistarem o jovem adulto que segue até eles e os envolve em abraços e beijos.
O pai.
Os três conversam e zumbem como abelhinhas em flores e as imensas mãos não se cansam de acariciar as cabeças agitadas por tantas falas.
Existem respostas prontas e entusiasmadas à cada pergunta feita.
Ela quase enxerga a cumplicidade pairando como fada, enquanto a conversa corre solta.
Ela se esquece das nuvens carregadas lá fora e das botas enlameadas. Se esquece do que veio fazer ali e do porquê de tantas noites mal dormidas.
Se esquece da polpuda conta no banco e, por um lapso, da carreira que escolheu seguir.
Ela sabe que os dois garotos tem pela frente um futuro. Todos tem.
Mas o amanhã de cada um será cheio de assobios. Mesmo em dias nublados.

Pois só assobia na chuva quem, um dia, conheceu o  amor de verdade.

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