quarta-feira, 16 de maio de 2012

Tempestade

Gosto das tempestades. As da natureza e ponto. As da emoção, fico longe. Cresci em um lar cheio de trovoadas e raios emocionais, onde dois adultos confundiam falta de controle, excesso de rigidez e impulsividade com descendência genética. O que mais ouvi, por longos anos, foram justificativas infundadas a respeito do sangue quente do italiano e da dureza do alemão. Hoje, acredito que nada justifique explosões de raiva, ataques de fúria, irritabilidade exacerbada. A violência me assusta e ela não precisa chegar a níveis altos para eu considerá-la inaceitável. Tenho horror à ataques físicos e verbais e acredito ser o segundo, o de maior poder devastador. Alguém que vive maldizendo, sejam as companhias de fornecimento hidráulico, sejam as notícias dos jornais, seja o trânsito, sejam os contratempos, se torna uma pessoa amarga, cinza e passa a acinzentar todos os sentimentos ao redor. O irritado, se não cômico em sua fúria pessoal, se torna mal visto, mal amado, antipatizado. O louco do trânsito, o reclamão do supermercado, a mãe cheia de lamúrias e insatisfações domésticas, convertem-se em crianças birrentas, intransigentes e insuportáveis. A vida é cheia de contratempos e saber contorná-los com um sorriso no rosto, para mim, é quase uma obra de arte. Não nasci santa e já tive os meus maus momentos, mas se não consegui evitá-los, ao menos, tive que conviver com o gosto ruim do arrependimento. Vasos quebram, pneus furam, filas existem, luzes faltam. Maus motoristas circulam aos borbotões, mas não devemos encarar tudo como uma ofensa pessoal. Acredito que a maioria das pessoas não comete erros por vontade própria e destroçá-los quando pisam na bola (ou quando nem pisam, mas achamos que pisaram) só enfatiza a nossa prória inabilidade em lidar com a vida e a nossa infantilidade emocional. A raiva é um sentimento que existe, é inevitável, é humano. Quando bem administrada, ela nos empurra para frente, nos impulsiona. Quando descarregada em forma de tempestade, destrói muita coisa e muitas jamais conseguem ser reconstruídas.

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