terça-feira, 22 de maio de 2012

Criança

Diferente das crianças de hoje, a criança que fui tinha muitas vontades, mas poucos poderes para fazer com que as mesmas acontecessem. Hoje, os papéis estão assustadoramente trocados e é muito comum vermos adultos subjugados por seres humanos com menos de trinta quilos. Eu, nascida na era da pouca democracia infantil, criava mecanismos de defesa quando meu espaço era invadido e formas de sedução na tentativa de conquistar algo desejado. Acredito que levamos pelo resto de nossas vidas esses mecanismos, se os mesmos nos trouxeram êxito. Se ficar doente ou machucado era a nossa única chance de obter um pouco mais de atenção, a doença ou o mal estar (mesmo que imaginado, aumentado ou inventado) será uma forma de barganha na hora de requisitarmos a atenção que julgamos menor do que gostaríamos. Eu costumava me isolar no meu próprio mundo - muitas vezes no escuro - para tentar fugir da tristeza. Como adulta, a tristeza me gera uma necessidade urgente de isolamento e, quanto maior, menos vontade tenho de dialogar. Era assim que eu lambia minhas próprias feridas e é assim que consigo cicatrizar as minhas decepções. Eu pedia pouco, por medo de ser inconviniente, por receio da rejeição e, quando pedia, era uma súplica cheia de culpa. Hoje, qualquer pedido me é difícil. Observe a criança que você foi. Lembre-se de como atraía atenção para si mesmo, de como despertava a aprovação dos seus pais, do que fazia para que eles se orgulhassem de você. Pense em como eram feitos os pedidos de favores, de desejos. Isso dirá muito sobre como você se relaciona com o mundo e com as pessoas e será um pequeno vislumbre do tipo de pais que você teve, pois cada mecanismo foi gerado pela forma como os mesmos se comportaram ao seu respeito. Se estivermos realizados com a criança que ainda habita em nós, ótimo. Se não, é hora de mudar.

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