domingo, 15 de novembro de 2015
O Passarinho Azul
Um ponto azul perdido na imensidão de verdes e marrons.
Um ponto que já foi para a calçada cinza e cheia de mandíbulas e pisadas.
O que você faz aqui pequeno pedaço do mar que ainda não pode ser oceano e voar?
Vou embora e deixo que a vida cuide da vida, pois não sou nada perto da sabedoria que me cerca.
Mas volto, pois meu coração bombeia mais com a força dos troncos, folhas, água e bichos do que com o meu próprio sangue.
Trago para casa o pedacinho de mar que ainda não é oceano e não pode voar.
Seringa com papinha, água, abrigo, preocupação.
Adeus.
Depois de uma noite serena ele se despede na palma da minha mão.
Depois de eu ter a vida abrigada no diminuto espaço entre os meus dedos, as asinhas azuis vão bater em outro lugar que ainda não posso enxergar.
Desabo com tanta dor como se duzentos quilos me arremessassem ao chão.
Um filhote de passarinho.
Não apenas um filhote de passarinho.
Toda a fragilidade minha, nossa, vossa que eu tenho a pretensão que se cure, sare, acabe, voe para longe, para o infinito.
Toda a dor de ser sozinho nos verdes e marrons, de doer na lama e nas calçadas de uma cidade que se chama luz.
No turbilhão de dormir e acordar e ser sol, chuva, temporal, amor e angústia.
Tenho a cabeça entre as mãos e o coração apertado por punhos.
Por um filhote de passarinho.
Não apenas um filhote de passarinho, mas todos os nossos afetos, amores, bondade que são mortos quando ainda estavam ensaiando o primeiro voo.
Ao olhar o corpinho inerte fico imensamente triste sem entender qual é, afinal de contas, a lição.
Ao ver as notícias, ler depoimentos, olhar fotos, fico imensamente triste sem entender qual é, afinal de contas, a lição.
Desse mundo que não tem paz.
Onde passarinhos não tem a chance de conhecer o céu.
Mas temos trabalho a fazer, vidas a viver, apesar tudo.
Sentada no chão de uma casa que não é minha, ouço um farfalhar desesperado atrás de uma grade de lareira.
Um ponto marrom de longas asas pretas se agarra ao ferro e tem o olhar resignado de quem sabe que chegou ao final.
Na palma da minha mão a andorinha se despede.
Mas desta vez para um lugar que eu posso enxergar e que é lindo como as asas do passarinho azul.
Adeus.
Uma manhã e duas despedidas.
Diferentes.
Penso que entendi a lição.
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