sábado, 21 de novembro de 2015

Fantasmas


Sente no chão da sua casa e olhe.
Você existe nas paredes, nos retratos, nos detalhes de cada canto.
Cada quadro pendurado com cuidado, cada vaso mantido com carinho, cada incenso ou mesmo toda a forma de bagunça.
O local que você escolheu para os seus guarda-chuvas, as suas bolsas, as suas chaves, as suas contas a pagar.
Os livros, as caixas abarrotadas de papéis, as roupas perdidas e em pilhas nos guarda-roupas ou esperando pacientemente em um canto da lavanderia a hora de passar.
Os imãs de geladeira, o cesto de revistas, a planta falsa, mas bonita.
Tudo é você.
A louça protelada, o descaso planejado, o afeto depositado na placa de Seja Bem Vindo ao Nosso Lar.
O boneco de ferro que sorri na grama, usa uma chapéu de palha e um avental de vovó.
As xícaras que não combinam, a louça que só pode ser usada em dias de festa, os copos feios e bonitos, a bagunça em cima da pia da cozinha e o ferro de passar que nunca parece ter um lugar definido para estar.
Então, sente no chão da sua casa e olhe.
Repense enfeites que não lhe dizem nada e que a cada dia que passa só ganham pó.
Repense a limpeza excessiva, a falta de bagunça, de liberdade e de vida.
Endireite os quadros de uma vez por todas ou os arranque das paredes e passe uma tinta nova para cobrir buracos e marcas antigas.
Jogue fora o que está apenas ocupando espaço, abra o coração e as janelas e deixe o ar entrar.
Recupere, mantenha, cuide de tudo que lhe pertence, de tudo que você quer olhar ao acordar e dormir, de tudo que faça os seus olhos sorrirem e a sua alma se encher de sentimentos bons.
Se desfaça, desapegue, jogue no lixo ser for preciso tudo aquilo que não faz mais sentido.
Mesmo o novíssimo recém adquirido que não lhe diz nada, apenas mostra a sua capacidade de o possuir.
Tudo é você.
Tudo remete à você.
Não aceite conviver com aquilo que não lhe traz conforto, sejam recordações, objetos, roupas, móveis novos ou antigos.
Sejam sentimentos, pessoas, atitudes ou lugares.
Nos acostumamos com cenários montados, com ideias antigas, com posturas apreendidas, com colchas velhas e travesseiros surrados.
Com coisas inúteis e caras.
Com carros e sentimentos blindados.
Nos negamos colocar fora vasos rachados, lâmpadas velhas, baús enegrecidos pelo tempo.
Guardamos muitas coisas velhas, muitas coisas sem uso, muitas palavras não ditas, muitos pés de meia que sabemos que nunca mais serão um par e sapatos novos que nunca iremos usar.
Temos medo de nos desfazer, de deixar para trás.
Do vazio a ser preenchido.
Mas antes uma casa vazia, pequena, simples e limpa, pronta para se (re) habitar do que um imenso castelo cheio de luxos, mofo, passado, futuros indesejados e histórias demais para guardar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário