domingo, 22 de março de 2015
Os bastidores de nós mesmos
A primeira vez que o Cirque Du Soleil veio à Porto Alegre ganhei o ingresso para assistir ao show.
Depois de degustar acrobacias que me tiraram o fôlego, amar o figurino impecável, invejar os corpos atléticos desafiando todas as leis da gravidade, virei uma ameba paralisada diante de tanta beleza.
O êxtase dessa overdose de arte aconteceu quando a música Alegria, tema do show, foi cantada por uma soprano, mágica na cordas vocais, enquanto os artistas cumprimentavam a platéia bem de perto, quase com um aperto de mão.
Sucumbi efusivamente às lágrimas.
Sucumbi à algo visceral e afiado que rasgou a minha alma e à expôs ao sol quente dos sentimentos mais resguardados.
Quem eram aqueles seres etéreos, maquiados com esmero, enganadores das forças da gravidade, portadores de tantos talentos indescritíveis?
Quem eram eles que me arrancaram do torpor da vida comum e me transportaram para os sonhos?
Depois de recolher os meus pedaços de racionalidade e caminhar para o meu carro, à luz ainda suave do fim de tarde, me senti uma ninguém, por ter me sentido a testemunha da constelação e do brilho que existem e que tentamos transferir para tantas coisas que não brilham de verdade.
Eu queria ser um daqueles viajantes de circo.
Eu queria ser mais do que alguém que se diverte ao dirigir um carrinho de supermercado.
Eu queria poder contorcer o corpo, girar no ar.
Até o dia que o vi.
Tenho certeza que se meus olhos não fossem ávidos por tudo que respira, eu o teria despercebido no viver dos meus dias.
Mas vi, pois me alimento do que observo e preciso caçar o que me sacia: a observação como forma de entendimento dessa vida.
Aconteceu vários dias depois, tentando achar uma vaga no estacionamento do shopping que patrocinou o circo.
Lindo, musculoso, triste, pensativo, incapaz de saber o que havia representado para inúmeros espectadores embasbacados.
Ainda com a roupa colante, mas sem a máscara, ele tragava com voracidade um cigarro.
Os olhos estavam desfocados e longínquos.
Sentado em algumas caixas ou engradados, os cabelos claríssimos e arrepiados, os ombros de quem está cansado.
Nunca esqueci.
Eu queria ter sido ele enquanto deslizava com confiança por cabos e se suspendia e se jogava, se fazia herói em uma imensa tenda projetada para fazer sorrir e exultar muitos.
Eu queria ser um pouco daquela aventura.
Que me fez pensar e mergulhar em devaneios.
Em cortinas fechadas e aplausos que servem para que fiquemos de pé.
Secando o suor e reconhecendo que nada foi fácil.
E mesmo não sendo fácil, vai continuar.
Por um.
Alguns.
Por nós.
Nenhum.
Ou muitos.
Mas que continua sendo lindo.
Eu queria ser um pouco daquela aventura.
Mesmo que traguemos, nos bastidores, os nossos cigarros.
Pois os nossos bastidores nunca são fáceis.
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