sábado, 7 de março de 2015
Muito mais que uma cabeça de dinossauro
Meu trabalho era cuidar do Guga, um salsicha cheio de personalidade.
Já no primeiro dia conheci o Gabi, morador do condomínio.
Filho da Betânia, vizinha do Guga, o salsicha que, por ser cheio de personalidade, contaria com uma mãozinha da Betânia caso resolvesse encarar uma greve de fome.
Não fez greve de fome, arrumei um novo amigo e, algo raro em mim, podem acreditar, passei à admirar profundamente três pessoas.
O Gabi, sua mãe e seu pai.
Ali, naquela pequena família, acontecia uma coisa muito rara hoje em dia nas famílias: união, cooperação e paz.
Eu chegava, no fim de semana, e o Gabi estava na piscina se esbaldando com o pai. A água jorrava da pequena cobertura e caía na frente da casa, algo que deixava o humor da Betânia muito divertido, ao contrário do que se espera da maioria das mães cansadas.
"Seus bagunceiros!" dizia ela entre risadas.
Eu saía em uma terça e lá estava o Gabi conversando loucamente a sua conversa de 4 anos com uma mãe interessada e atenta, que o levava na cadeirinha do carro.
Sentada na sala, brincando com o Guga, ouvia os três interagindo como pessoas que se amam, se preocupam e cuidam desse amor.
Não preciso dizer que o menino era só simpatia, extroversão e meiguice e que era muito amigo do Guga, uma conquista difícil se tratando de um cãozinho ranzinza e velhinho.
Mas quem recebe amor, consegue dá-lo da forma mais natural possível.
E ele, o menino, não era bobo nem mimado, era um menino de 4 anos com pais que sabem o que um menino de 4 anos precisa, acima de tudo.
No meu último dia, sentada no chão, jogando uma bolinha azul de borracha longe, que era prontamente devolvida, e acariciando a barriga da gata Phoebe, percebi que algo acontecia na pequena família.
Depois de sentir muito cheiro de tinta invadir as minhas narinas, resolvi ir dar uma espiada lá fora.
A Betânia estava pintando, com spray, uma peça de espuma. Sentada na calçada, empunhava a lata onde o jato verde de tinta preenchia a superfície branca de uma forma estranha.
Me aproximei.
Então soube que, no primeiro dia na escola nova, o Gabi vestiu um chapéu imenso que imitava a cabeça de um dinossauro. Louco por dinossauros, foi arrebatado por uma paixão febril.
Não podendo levar o objeto de sua paixão para casa, a mãe, incentivando a adaptação suave na escola, não teve dúvidas.
Confesso que me rendi à capacidade criativa dela, pois ficou lindo.
Mas me rendi muito mais ao sentimento de esperança que me envolveu.
Em uma tarde livre de Sábado, um casal que trabalha e poderia estar desfrutando de seu descanso viajando, namorando, comprando, estava feliz em ser o que é.
Jovens com um filho pequeno que requer atenção.
Atenção agora, nesse momento em que cresce, interpreta e absorve o mundo através do que vivencia com os pais.
E não tenho dúvidas de que esse menino será um adulto excelente, não necessariamente bem sucedido, mas feliz.
Esse menino, que não viu os pais entrarem em uma loja e pagarem caro por uma cabeça de dinossauro, mas percebeu que o seu desejo de criança foi transformado em um momento de união e amor.
O seu desejo de criança foi compreendido e atendido em forma de momentos felizes, de cheiro de tinta, de uma mãe e um pai sentados no chão, rindo.
Porque esse menino não é um estorvo que é acalmado com dinheiro gasto.
Ele é o Gabi.
E ainda não sabe, mas será um ótimo pai, marido, amigo, empregado, patrão.
Ser humano.
Pois tem a sorte de ter pais de verdade, sadios de mente.
E, um dia, ele compreendera a grande benção que teve.
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