quarta-feira, 18 de março de 2015
A Linda Dodô
Ela era simplesmente linda.
Não eram apenas as longas pernas torneadas e fortes, os cabelos claríssimos em cascata e os imensos olhos azuis.
Não era apenas a juventude fresca e reluzente, nem o fato dela ser surfista em uma época em que o surf era dominado pelos rapazes.
Ela era linda porque sabia ser e não com falta de modéstia, arrogância ou futilidade, mas com coragem.
Coragem de ser bela sem medo. Sem se escravizar às mazelas e aos protótipos da beleza, mas fazendo do seu encanto algo absoluto, sem segundas opiniões.
Pois ela não ostentava somente traços impecáveis, ela tinha as próprias asas abertas para ser a menina que avermelhava os olhos depois de tragar seus cigarros, que se declarava quando amava e que se jogava nas ondas que quebravam fortes na praia da Guarita.
Louca por ler a alma dos outros, consegui ler apenas algumas linhas do imenso livro que se escondia atrás de tanta vida. E vi um oceano de segredos atrás dos olhos sem maquiagem.
Eu não era muito amiga da Dodô.
Eu queria ser a Dodô.
Pois ela não fumava maconha para se auto afirmar, fumava porque queria.
Ela não surfava para se destacar, surfava porque gostava.
Ela não arrasava os corações para machucar, o fazia porque podia.
Ela não precisava ser nada além do que era, o maior troféu que se pode ter aos 14 anos, - ser estupidamente linda - mas fazia questão de ser.
Um pouco da minha ilusão, aquela que nasce através das fábulas infantis, dos contos dos super heróis e da idealização de certas pessoas, morreu no dia que reencontrei a Dodô.
No Sashiburi, para ser mais exata, há alguns anos atrás.
A menina sereia havia se escondido em um escudo de gordura e timidez.
Curvada, imensa, cabelos sujos e postura acuada.
Quando os ainda enormes olhos se encontraram com os meus, ela os baixou e não me cumprimentou.
Naquelas poucas linhas que outrora li, vi que longe de ser antipatia, o desviar dos olhos era tristeza, mágoa, arrependimento.
Era um "olha o que a vida faz com a gente."
Era um pedido de desculpas sem ter errado.
Sempre que me sinto desiludida, triste e sem esperanças me lembro da Dodô.
O que nos faz desistir, se esconder atrás do que quer que seja, abandonar o nosso ser em troca de uma cópia que vive por nós?
Quando deixamos a ilusão cair e nos recusamos à dar dois passos para trás e a recuperarmos nos braços, agarrarmos com as nossas mãos?
Onde, quando e por que ela esqueceu de ser tão magistralmente viva?
Onde, quando e por que nós esquecemos?
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