sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Cavalo


Temos a tendência a nos acostumarmos às coisas.
O pão do café da manhã, quase sempre o mesmo.
O supermercado onde fazemos as compras.
O sabonete, o shampoo.
A hora de se pesar, de acordar, de se olhar no espelho e reclamar da imagem que nunca satisfaz.
A necessidade de proteção, por mais ilusória que ela seja, aos perigos inerentes de viver se esconde em cada pedacinho de rotina, de hábitos incrustados nos deveres diários que nos trazem conforto e felicidade, porém a felicidade pode andar bastante longe do conforto, por mais incrível que isso possa parecer.
Por isso as viagens são a glória da alma.
Pelo simples fato de nos descobrirmos no desconhecido, renovarmos a cor das nossas pupilas no desvendar do novo.
E somos cavalos domados pelo medo.
Medo de tanta coisa, quando a principal e certa é aquela que pertence à todos.
E quase nunca o que nos salva é aquilo que pensávamos ser o herói de nossa história.
Pois fomos domados com relho, a maioria de nós, acreditando que o dever de existir vem carregado de milhões de culpas e, portanto, a subserviência às coisas, pessoas, valores e temores é a solução.
Ontem eu passeava por uma praça perdida nos confins da zona sul. 
De repente avistei um cavalo.
"Que tranquilo", pensei ao ver o imenso volume marrom, de cabeça baixa, corpo inerte em pleno sol escaladante de verão.
Entre os bancos que ladeavam a quadra de futebol, ele era um quadro sem moldura, complementado pelos verdes e o azul do céu.
Um animal pomposo desfrutando do prazer de estar ali, como eu.
Cheguei mais perto.
A corda que o prendia tinha se emaranhado no banco e ele, preso, esperava que o seu salvador o buscasse. Aquele que o havia amarrado à tela da quadra e o esquecido ao ponto de não perceber as tantas voltas que ele havia dado.
Ou talvez ele, o cavalo, estivesse apenas aguentado a penitência das cordas e de tudo que elas representam quando não se tem mãos, inteligência ou tesouras à frente.
Não tive dúvidas.
Mesmo com o risco de levar uma patada fui, devagar, desfazer os nós da corda.
Ele não me olhou em nenhum momento.
Somente quando se viu mais solto, virou o pescoço forte e colocou os olhos negros dentro dos meus, saindo para a sombra e o pasto.
Ele esperava o dono.
Eu, passeava na praça.
Naquela praça quase nunca vou.
Acho que também sou um bicho esperando a salvação, a redenção e a felicidade.
Somos.
Eu e ele.
Mas agora ele também sabe que a mão que desata o nó pode ser a mais inusitada possível e, quase sempre, não é a que esperamos.
Eu já sabia.
Mas me lembrei de novo.
Graças à ele.

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