quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Mulher Fácil
Não me venha com uma mansão branca, de escadarias de mármore e obras de artistas ilustres nas paredes imaculadas se não poderei brincar com minhas crianças e trazer os pés sujos de vida para dentro de casa.
Não preciso de um jardim repleto de sebes esculpidas com bustos de mulheres se eu não poder gargalhar alto e, desajeitada, amassar algumas folhas do verde intenso e reto.
Se eu tiver apenas uma flor plantada no meu vaso de barro, mas ela for minha alegria diurna que não me será arrancada com palavras de cólera nas noites sem lua, deixo, com gosto, a fartura das plantas que tanto amo.
Coloco pedrinhas em um cantinho de mato, se elas forem testemunha do meu sono tranquilo, sem mágoas ou remorsos.
Não me venha com luxos diversos se eles me forem dados depois de muito ter sido tirado.
Não sou fácil de ser agradada se os agrados vierem em forma de coisas que não toquem a minha alma.
E minha alma é bicho arredio às trocas mundanas, às gaiolas banhadas em ouro e prazeres que durem apenas o tempo que o corpo necessita.
Troco todos os meus bens por um colo de braços apertados, pois serei capaz de mover montanhas se me alimentar de carinho.
Pois sou uma mulher muito fácil.
Me rendo muito rápido à tudo que faça os cantos da minha boca virarem para cima em sorrisos verdadeiros.
Não me venha com promessas de viagens encantadas se elas me custarem muito.
Sou capaz de viajar ao deitar no chão e ver o movimento suave das nuvens brancas em céu azulado.
Troco tudo por paz.
E se não puderes me dar apenas isso.
Ficarei bem.
Pois já tenho tudo que me dá serenidade guardado comigo.
Só te peço que não tentes, ao sair, levá-las contigo.
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