terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Cartão Postal
Um acontecimento no ano de 2005 agarrou a minha alma na mão e acrescentou uma curva na massa modelável que sou.
Na Isla Negra conheci a casa de Pablo Neruda.
Junto com o ar salitrado e vivo do mar, aspirei, já na entrada, os olfatos daqueles que deixam suas marcas profundas no mundo.
Incorporei Pablo dentro de cada peça de uma casa que guarda impressões tão vivas como as ondas que quebravam lá fora, rugindo, na homenagem eterna à um gênio no talhar do espírito através das palavras.
Por que tudo isso agora? Depois de tanto tempo?
Porque meu trabalho permite ver a delicadeza (nem sempre) do existir no interior do aconchego (nem sempre) das casas.
Caminhando com os cães que cuido, dia e noite, meus olhos prescrutam interiores de janelas e vidas, na intimidade do descanso ou trabalho diário.
Sou ferozmente curiosa e ávida por tudo que se relaciona aos mistérios da existência, então, me perdoem, olho com força.
E vejo muito de tudo que prometi que não teria, à partir de 2005.
Prometi que não teria muita coisa diferente do que vi em cada ambiente enfeitado com esculturas de sereias, mesas enormes para receber os amigos, janelas de vidro para o filme do céu, adegas com espaços para a alegria, retratos e quadros de cor, na casa de um homem que não nasceu para o comum. Um homem que fez da brevidade dessa viagem um voo magnifico que foi feito com o esforço de quem sabe ser o único.
E lindo.
Não por capricho, mas pela consciência de que ele é finito, mas deve ser bonito.
O que vejo nesses mergulhos na vida alheia é apatia.
Novela, rostos iluminados pelas telas, elas, de todo os tipos.
Vejo bocas mastigando sem prazer, olhos olhando sem foco.
Casas impecáveis sem calor, sem pessoas em volta das mesas, sem brindes por trás das fotografias posadas para serem perfeitas.
Também sou testemunha de mãos que podam galhos pelo simples prazer de vê-los podados.
De pequenos detalhes que me mostram que nem todos sucumbiram à triste banalidade de simplesmente se dar bem na vida como sinônimo de ter muito dinheiro.
Dinheiro é bom, necessário, com certeza.
Mas troco Paris pelo meu quintal se nele eu puder ver poesia.
Pois a vida não é um cartão postal.
Mas cada letrinha que escrevemos no verso de todas a belas imagens que temos.
Fazendo delas mais do que imagens.
Lembranças.
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