terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Nosso voo é sem capa.


Entrando no clube para bater uma bolinha, me deparei com a seguinte cena familiar: a mãe e seus dois filhos pequenos, uma menina por volta dos dois anos e um menino com seus cinco.
A pequena moça empunhava um carrinho de bonecas onde um coelho de pano jazia confortável e bem coberto por uma colcha cor de rosa. 
Diminuí o passo para poder degustar aquele protótipo de ser humano, ajeitando a cobertinha, olhando com devoção para seu objeto de amor: o filho orelhudo.
O protótipo de ser humano versão homem já corria à frente, chutando a bola que lhe servia, era sua escrava no ato de rolar e quicar provendo a sua diversão exclusiva.
Essa cena explica muito sobre os homens e mulheres deste planeta.
Ela, brincando para aprender à se doar, ele, brincando para aprender à se doar prazer.
Vou arrumar alguns desafetos masculinos por aqui, mas vou adiante.
O homem jamais sai da fase de tentar, exaustivamente, se proporcionar coisas boas, mesmo com intervalos para brincar de se ser pai, chefe, empregado, amante e melhor amigo de outro que carregue os XY em seus cromossomos.
A mulher nasce para amparar, aconchegar, confortar, receber as dores, servir aos sentimentos.
A mulher guarda o filho, o sexo do homem, o alimento da cria, tudo dentro de si.
Ela guarda imensos segredos e o maior de todos é conhecer os segredos dos outros que ama, mesmo fingindo os desconhecer.
Somos hábeis na arte de dissimular o peso imenso que carregamos nos ombros.
Somos hábeis em mentiras que salvam e omissões que restauram.
Mestres em panos quentes, colo, choros suprimidos e decepções usadas como remédio para nos fortificar.
Não chutamos, tampouco socamos, pois a nossa força não é medida na capacidade de se impor, mas reside na grandiosidade da espera, da aceitação do tempo e da habilidade de se consertar. 
Na maioria das vezes sozinha.
Quase não existem mulheres assassinas em série, violentas, abusadoras sexuais, traficantes e toda a gama de barbáries existentes por aí.
E quando elas fazem parte desse quadro de miséria e horror, choca, arrepia, surpreende.
Nosso sexo não cresce em uma ultrapassagem agressiva.
Não nos sentimos potentes pilotando um monte de aço, fazendo número ao invés de sexo, exibindo parceiros esbeltos, jovens e sarados. 
O nosso poder vem do simples prazer de sentir prazer com nada muito complicado.
Mesmo eles sempre afirmando o quão complicadas somos.
Eles não sabem de nada.
E se tiver amor, então, mesmo sem capa e sem voar, podemos até salvar o mundo.
E nem precisamos, depois, receber os méritos ou virarmos filme.
Apenas um beijo.
Uma mão nos cabelos.
Um cheiro no pescoço.
Ou simplesmente dedos entrelaçados nos nossos, no reconhecimento de que, afinal, também podemos ter colo.

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