segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Grande Angular


Uma amiga me diz que ando vendo o lado escuro da vida.
A conheço há mais de duas décadas e ela deveria saber que sou alguém que faz a vida ser Muito.
Talvez seja uma boa comparação dizer que vejo a vida como se estivesse atrás de uma lente grande angular.
E talvez também eu possa dizer que não vejo a vida, a fotografo.
Cada instante, cada pessoa que passa na rua é gravada na minha retina e fica lá guardada para ser impressa nos meus pensamentos e se tornarem palavras.
Um Tatu Bola, o reflexo do sol na piscina, um idoso que não largou o cigarro, uma borboleta neon, um falcão pousado na ponta do longo cipreste.
Um abraço demorado, uma grosseria constrangedora, um olhar.
Uma mão bonita de homem, um colo bonito de mulher, o riso solto visto no último segundo antes de eu virar a curva e perder o motivo de tanta alegria.
E os meus registros são embalados pela trilha sonora das falas, dos murmúrios do mar, do vento soprando, das desilusões em forma de rispidez, das frustrações disfarçadas de raiva.
Sim, os meus olhos tem visto um pouco menos de beleza do que eu gostaria, mas eles não deixam de perceber que ainda tem muita coisa digna de guardar na memória da alma.
Não estou mais triste nem amarga.
Estou mais viva do que nunca e tão viva que fiquei exigente na forma de levar a minha vida.
Não penduro na parede aquilo que não embala os meus sonhos.
Mas vejo tudo.
E tenho colocado muitas fotografias no lixo.
E com elas a escuridão que não é minha.
Mas do momento que elas registraram

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