sábado, 14 de maio de 2016
O Buxo de Plástico
Ele mora em uma bicicletinha de ferro pintada de branco, em um recuo da fachada da casa, onde se pode espiar pelos vidros a minha sala.
Quando o vi aninhado, verde e redondo, no Vaso Bicicleta esperando por quem o comprasse, me apaixonei perdidamente.
O enfeite cabia exatamente no vazio da janela e ao molhar a grama os meus olhos enamorados pousavam sempre na delicadeza e perfeição do meu pequeno buxo de plástico.
Mas a paixão cedeu ao costume e ele virou a rotina das minhas regas quase diárias.
Vez ou outra ao entrar apressada na casa voltava os meus olhos à ele, mas eu havia deixado de varrer com um pincel as suas pequenas folhas para que elas continuassem verdes e lustrosas.
Eu havia esquecido de girar o guidão e reposicionar a imitação de plantinha podada, de assoprar as sujeirinhas ocasionais, de empurrá-la para a proteção da parede em dias de temporais.
Eu ainda o amava e amo, mas havia me acostumado a receber sua diminuta beleza sem perceber o quão frágil ela era, muito mais do que o ferro da bicicleta que a abrigava.
Eu esqueci de dar.
O recebia com gratidão por fazer mais poéticos os meus dias, mas certa da perenidade de sua beleza, certa da oferta diária do seu conforto, deixei de cuidar.
Há pouco tempo olhei para ele como o olhei quando ele ainda não me pertencia.
Sorri com a lembrança da alegria que ele sempre me deu e fui, depois de muito tempo, ajeitá-lo nos braços da bicicletinha de ferro.
Então, nas minhas mãos ele quebrou.
Dezenas de folhas de plástico se desfizeram ao meu toque, secas, sujas e duras, espalhando um tapete verde nos tijolos da janela.
Não era para sempre o seu viço e a sua oferta de beleza, pequenino?
Acreditei demais na sua força, na sua garantia da minha felicidade e esqueci de varrer com carinho o pó que lhe cobria?
Fui egoísta ao querer sempre receber a sua singela oferta de alegria sem dar nada em troca?
Ele mora em uma bicicletinha de ferro pintada de branco, em um recuo da fachada da casa, onde se pode espiar pelos vidros a minha sala.
Mas jamais será o mesmo.
E o vendo, desfolhado e feio, lembrarei para sempre que todos os nossos afetos devem ser cuidados, pois existem mortes muito mais tristes do que a de uma pequena, bela e redonda plantinha de plástico.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário