O coração começa a acordar e vibra.
Os passos.
Eu e você entramos no videoclipe das nossas vidas embalados pelo som que nos serve de trilha.
Eu e você expandindo as artérias, fabricando prazer no ritmo das passadas, na pele que aquece, no vento e sol que assopram êxtase no nosso rosto.
Tudo passa rápido, mesmo as fagulhas de pensamento.
Como a visão de uma janela de trem em movimento.
Nossas dores escorrem em gotas pelo corpo e vão evaporando salgadas e já sem peso.
Eu e você.
Que escolhemos correr.
Com os cenários embalados em melodias, com a chuva fina, o sol de verão e a lâmina seca do vento gelado.
Não temos tempo para os problemas que ficam pisoteados no esforço de uma lomba qualquer que nunca é tão íngreme para o nosso fôlego.
Declaramos o nosso amor ao próprio corpo na intensidade de fazê-lo sentir-se vivo.
E quente.
Eu e você que temos esse segredo de felicidade guardado nos nossos fones de ouvido, nos tênis cansados, nas pernas fortes, no varal repleto de roupas de esporte.
Somos bichos livres.
Eu e você que corremos.
E temos esse segredo.
De sermos selvagens.
No suor, no pisar, no desviar, no olhar e atravessar.
E ao recuperarmos a respiração tranquila, ao voltarmos às cadeiras e rotinas, somos outros.
Bichos livres que se submetem às amarras.
Até escancarar a boca e expandir as narinas na próxima trilha.
Na próxima estrada.

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