sábado, 7 de maio de 2016

Mãe


Sou mãe de cabelos e de pelos.
De barbas crescidas e de penugens douradas em moleiras recém nascidas.
Sou mãe de genros, maridos e sogras.
De flores que pedem água, de terras que pedem para serem remexidas e adubadas.
Sou mãe de garfos e facas que se desorganizam e se sujam na desobediência de casa cheia, na alegria de refeições quentes servidas.
Sou mãe de lençóis cheirosos, das próprias palavras de que tudo vai ficar bem nos dias turbulentos e chuvosos.
Carrego no coração e no colo as preocupações com o trabalho, com as contas, as ruas, os animais, as crianças, os sem casa.
Uso meu corpo de escudo e meus dentes de aviso à tudo que considero ameaça aos meus filhos. 
E tenho tantos, mesmo que eu nunca os tenha carregado nas minhas entranhas, pois os cultivei para sempre nas minhas veias, no meu sangue e na minha alma.
Sou mãe dos choros e das alegrias, das conquistas e das derrotas.
Me alimento da felicidade dos meus amores e morro feita em pedaços nas tristezas que os corroem.
E não, não sou mãe porque gerei filhos.
Serei mãe até ter sido a mãe que meus irmãos precisaram e a mãe dos meus pais que estarão velhos.
Então, mesmo não sendo mais os olhos que guardam, já não sendo mais mãe e sendo um futuro outro qualquer.
Terei a grandiosidade de ter sido mulher.

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