domingo, 3 de janeiro de 2016

Sócrates e seu baixo astral.


Sócrates insistia no conceito de que a vida deve ser examinada para ser vivida plenamente.
Porém, os filósofos ao longo do séculos buscaram uma forma de atingir um estado que se chama ataraxia, que seria uma total imperturbabilidade.
Acredito que o pensamento de Sócrates e dos demais filósofos são divergentes, pois não existe chance de sairmos incólumes à perturbação ao examinarmos a vida.
Por isso, para este ano novo, pretendo buscar na ignorância uma forma de viver melhor.
Ao examinar algo dedicamos os nossos pensamentos e energia ao objeto em questão.
Pode ser uma obra de arte, um pôr do sol, uma pessoa, um cenário, não importa, seremos essa obra, esse sol e essa pessoa enquanto estivermos ocupados e entregues à essa investigação minuciosa e nela definiremos o que pensamos e sentimos a respeito.
Não quero mais examinar o que me agride, quero olhar, sentir e receber o que me faz bem, o que me provoca bem estar.
Porque o exame de algo que nos desagrada leva ao julgamento e o julgamento leva à pré conceitos que não dizem nada em relação à vida, exceto em relação à nossa própria história. 
Ao nos envolvermos com o ruim e ao julgarmos algo injusto temos que agir ou simplesmente morder os lábios, gritar, esbravejar ou sacudir a cabeça e essas ultimas atitudes só servem para poluir a alma.
Se para poder viver em paz eu tiver que virar o rosto e ignorar, tentarei arduamente.
Se para poder viver em paz eu tiver que deletar o ruim da minha mente, molhando as minhas flores no jardim, olhando para o céu ou rindo com as minhas filhas, tentarei com todas as minhas forças.
Porque estou cansada de reclamar do que não posso mudar.
E de consertar dentes depois de rangê-los.
Estou cansada de reclamar do país, das pessoas, da segurança do raio que o parta.
Estou cansada de examinar o nó sabendo que ele não irá se desfazer através das minhas mãos.
Se não posso desarmar a bomba, vou caminhar calmamente para bem longe da explosão e se eu não puder, vou fechar os ouvidos e pedir a Deus que me poupe dos estilhaços.
E só Deus sabe quantas bombas desarmei nestes últimos anos.
Houve época da minha vida que eu ignorava uma série de realidades duras pelo simples fato de possuir a ingenuidade da juventude (e a fórmula para a sobrevivência).
Eu era mais feliz?
Não, mas era mais tranquila.
Eu conseguia sorver mais do bom sem que o meu conhecimento do mal interferisse na degustação.
Era mais fácil habitar o meu mundo particular e tentar fazer dele o melhor lugar para viver sem precisar existir em lugares que eu jamais tomaria conhecimento sem a rapidez das informações.
Eu demorava mais dias para ver todo o sangue que jorra por aí e só tomava conhecimento quando o mesmo havia secado e o impacto do vermelho não era mais motivo para o meu próprio sangramento.
Eu abraçava menos causas e, portanto, deixava de fazer outras vidas mais cômodas, mas preservava a minha saúde psíquica e consequentemente física.
É egoísta pensar assim?
Pode ser, mas se não formos um pouco egoístas na hora de correr junto da manada, seremos os primeiros a cair entre os dentes alheios.
E o mundo sempre foi cruel, insano e feio, porém não existia uma forma tão hábil de ficarmos por dentro de toda essa feiura.
Como a ataraxia exige que as sensações sensoriais sejam suprimidas e sou movida à paixão, prefiro fechar os olhos.
Posso evitar em 2016 pessoas que não me dizem nada.
Posso evitar tudo que me agride e entristece.
Quero evitar o ruim.
Mesmo que seja cultura, mesmo que seja moda ou informação.
E quero que Sócrates vá às favas.

3 comentários:

  1. O texto é muito bom, mas não consigo te ver como uma Pollyana. A utopia de "Posso evitar tudo que me agride e entristece. Quero evitar o ruim." não funciona para uma pessoa que tem a sensibilidade demonstrada no teu próprio escrito. Essa é a minha percepção. bjo

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  2. Venho estudando este teu pensamento a algum tempo.As vezes me sinto que sou muito chato e acho que a maioria dos seres humanos são idiotas.Mas como saber que algo é bom se não conhecermos o mal.Como ser feliz se não passarmos pela tristeza.O melhor é deixar de ser tão sensível e pensar:o problema dos outros é somente dos outros,não quero para mim.

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  3. Ao ler teu texto, da forma como escreves, vou me convencendo que tens razão... Qdo leio os comentários acima, sou obrigada a concordar com eles!!! Embora também tenha vontade de poder ignorar aquilo que me faz mal. Bjo

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