quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Jardim


Ela tinha flores e buxos que podava e regava como mãe que amamenta seus filhos.
Cada planta tinha o seu lugar como retalho em colcha cerzida que serve para abrigar do frio e colorir a vida.
Deslumbravam o coração e os olhos as trepadeiras de jasmim, a grama pintada com o verde oliva, as camélias com vontades de maio.
Os coqueiros que cortavam o azul do céu com suas folhas que provocavam um tremeluzir nas cores fortes do sol.
Ela era essa vida que nascia em cada pétala e umedecia os dias como as seivas que nutriam a terra.
Então, ela perdeu.
Um pedaço dela foi junto quando ele partiu.
Não tão tarde, mas muito cedo na vida que ainda brotava.
E no adeus ela deixou parte do seu coração.
A parte que remexia o solo, adubava e via na insurgência das plantas a porção necessária da indocilidade de uma natureza exuberante e dona de suas hastes.
Ela perdeu a paixão selvagem de deixar os cabelos secarem ao vento enquanto introduzia novas sementes.
Ela perdeu os olhos que olhavam os dela e se rasgavam em um sorriso ao ver os pequenos labirintos de pingos d'ouro que ela cultivava.
O rosto dele que não se importava com mãos cheias de húmus nas unhas. 
E como ele, o seu jardim deu sinais de pouca saúde.
Na ausência da mãe que cuidava, o sol e a chuva não foram as carícias e o colo.
O verde tornou-se cinza nas réstias da beleza de antes.
A vontade murchou sem água.
O caule se curvou sem esperança.
E o jardim estava prestes a partir.
Feito ele.
Até ela receber uma flor.
Que replantou no jardim quase morto.
Que regou com o resto da vontade.
Que viu surgir forte, densa e colorida.
E tudo mudou.
Nada tinha o mesmo lugar de antes, os tons eram novos e certas sementes adormeceram aos pés dos brotos que penetravam o solo.
As cores de antes tinham novas nuances.
E outros olhos se rasgavam ao ver a força dela em amamentar a vida.
Como uma pequena flor ela furou o solo.
Respirou o ar.
Renasceu.
E redescobriu o amor.


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