terça-feira, 26 de maio de 2015
Vamos Acumular Sorrisos
Tenho um amigo que é pura alegria de viver.
Ele não vive, sorve a vida.
Aos 76 anos resolveu que vai encarar a caminhada de Santiago de Compostela, porque sabe "quer se descobrir mais".
Fico encantada.
Certa vez, perguntei, nem lembro bem o que, sobre bem estar e alegria de viver e ele me disse que retira rápido da cabeça qualquer pensamento ruim.
Quiçá eu aprenda de vez essa arte de se alienar, mas no bom sentido. Ando tentando.
Com a política já aprendi, simplesmente recuso à me deixar envolver por esse escárnio que é o nosso país e seus governantes decadentes e larápios e com isso economizei algumas doses de sofrimento e desgosto. Sei, mas não me aprofundo.
Agora, com o resto...
Doenças, mortes, assassinatos, animais em extinção, florestas em extinção, amor em extinção.
O mundo virou uma tela pintada de más notícias com breves pinceladas de coisas boas e isso me esgota.
Porque tenho uma vida boa, graças ao bom Deus, mas não consigo deixar de me afetar por cada episódio escabroso desse filmezinho barato de terror que virou viver neste planeta. Principalmente neste país de impunidade e de total desvalorização da vida.
E com a internet tudo piorou, pois o conhecimento do que acontece fez da suposição uma realidade, nos tornando testemunhas de que o horror não é algo inatingível, ele mora ao nosso lado, ele nos pertence, são pessoas como a gente, que trabalham de dia e estupram à noite, que comem no Mac Donald's depois de espancar o filho, que jogam um balde cheio de filhotinhos no riacho, mas tem os louros e longos cabelos trançados feito as princesas da Disney.
E é quase impossível espremer esse monte de limões para fazer deles uma limonada.
Por isso tem que se alienar do ruim.
Tem que olhar para o céu, para o mar, dar uma de maluco beleza e conversar com as plantas.
Porque se nos abaixarmos muito, caímos.
Temos que buscar em alguma fonte que nos pertença, o balde de água que vai nos tirar a ressequidão dessa existência árida e sofrida.
Uma fonte que nos faça entender que ainda iremos longe (e se não, nem vamos saber) e portanto temos que estar hidratados para recuperar o suor que nos encharca nesse caminho íngreme e obtuso.
Iremos morrer, então será um pouco melhor carregar na bagagem de travessia mais sorrisos do que angústias.
Se a forma dessa bagagem ser elaborada for censurada por muitos, paciência, vá ser feliz, desde que não ofenda o outro, claro.
Vá escalar o Himalaia, caminhar em Compostela, correr em Dakar, mergulhar com os tubarões.
Ando tapando os olhos para o feio, abrindo para tudo de lindo que resta. Para os pequenos e grandes prazeres e me permitindo sorrir mais.
O mundo é bastante culpado para que eu ainda carregue culpa no meu coração.
"Eu bebo para aguentar o mundo" diz um outro amigo meu, hiper sensível.
Traz os copos.
Vamos acumular sorrisos.
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