sábado, 23 de maio de 2015

Ninho Vazio


Aos vinte e oito anos rasguei a minha pele para desenhar duas pequenas flores nas costas.
Uma simbologia para o papel que eu vivenciava a plenos pulmões.
A maternidade.
E toda a sua dor e beleza.
Há dois anos fiz das flores um pássaro de asas imensas e abertas.
Prevendo o voo solo daquelas que saíram de mim, tive que sangrar de novo a pele para preparar o espírito e deixar ser livre quem nasceu para o mundo.
Os pequenos pulinhos no solo, os pequenos arremedos ao céu e o ninho cada vez mais vazio tem feito o meu coração apertar com a previsão que está prestes a se tornar fato.
Os sinais me são claros, pois sempre fui leitora voraz da vida.
Rebeldia, desassossego, críticas ao modelo, planos, independência financeira, valorização do tudo que não é nosso como trampolim e impulso ao desconhecido e, por enquanto, desconfortável.
Tem doído nelas também, eu sei.
E o peso da dor vem respingado de atitudes nem sempre amigáveis e é preciso ter uma tonelada de maturidade para entender que as relações humanas são bonitas mesmo em toda a sua intensa complexidade.
Ver os filhos chorarem ou sofrerem é uma das maiores dores do mundo.
Permitir que isso aconteça para que eles cresçam e sejam felizes, é quase insuportável.
Mas é necessário.
No ato de deixar um amor nosso ser totalmente livre existe a permissão para que um pedaço do nosso coração seja levado junto, na bagagem.
É a permissão para que sejamos trocados em prol de vários outros amores, protelados, mas jamais esquecidos.
Seremos a assinatura em cada traço do rosto, mania, gostos, exemplos copiados ou evitados ao extremo.
Seremos o passado, os alicerces que são pouco lembrados, a voz que será ouvida no escuro do quarto. De olhos fechados.
E faz parte.
Dói, sangra, mas se torna um desenho lindo.
Lindo, principalmente, para nós.
Para sempre nosso.

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