sábado, 11 de abril de 2015
Bem vindos, cabelos brancos.
Esses dias, observando um jogo de vôlei na areia, fiquei encantada com a exuberância da juventude.
A da mulher, claro, pois os homens jovens, na sua maioria, são desengonçados, cabeçudos, magrelas e, de brinde, muito chatos com sua voz em falsete, sua energia convulsiva e seu comportamento que beira a bestialidade, quando em bando.
As meninas transpiram viço, graciosidade e energia vital. Ondulam os quadris como as sereias, mexem nos longos e saudáveis cabelos, se aproveitam da firmeza e agilidade do corpo para se deslocar entre os reles mortais, sabendo serem ninfas neste mundo ordinário.
Talvez por todas essas benesses é que sejam mais cobradas em futuros próximos.
Pois bem.
É tudo muito lindo, mas só Deus sabe como amo envelhecer.
Cada ano que ganho é um nó que desato.
Emocionalmente nem se fala, mas falo dos nós que apertamos, dessas amarras que criamos na intenção de estar no padrões físicos estipulados por uma sociedade doente.
Já disse aqui que o meu lado infantil se envaidece quando dizem que pareço uma menina, ao mesmo tempo que fico chateada. Primeiro porque sei que posso parecer menos idade, mas menina é bastante exagerado, depois porque penso que uma menina jamais gostaria de ouvir um elogio do tipo "nossa, você parece uma mulher madura!", mesmo tendo mulheres maduras mais atraentes do que muita menina.
Por que?
Porque a nossa sociedade é doente e preservar o culto à não velhice é uma obsessão constante.
Já ouvi que eu tinha uma barriga que nem parecia ter gerado filhos, isso há alguns quilos atrás.Como assim? Depois de gerar filhos a barriga vira o que? Uma barriga que gerou filhos, ora! Não negativa, não tanquinho, não reta, mas, ao meu ver, muito mais bonitinha do que a dessas Mulheres Halteres que andam por aí. Não quero ter uma barriga que não acomodou minhas filhas dentro de mim, obrigada!
Tive a surpresa de ouvir da minha sogra de 89 anos (que nunca quis parecer uma eterna menina no decorrer da sua vida) que pintava os cabelos, pois ficava velha de cabelos brancos.
Ops! Ela não é velha? Claro que é, mas não vejo nisso uma ofensa.
Mas a sociedade doente vê.
Tanto que criaram o absurdo da melhor idade como um presente bônus para o total desfortúnio de ser velho.Tipo, aceite esse título já que você entrou no inferno.
Certo, as limitações físicas graves, consequência da idade avançada, podem ser complicadas se a pessoa não tiver se exercitado, se alimentado bem e se cuidado no decorrer da passagem dos anos, mas esquecemos que aprender a caminhar, largar o peito materno, receber o primeiro dente, perder a virgindade, dentre outras diversas coisas, deve ter gerado bastante sofrimento.
Aqui, pensando com meus botões, acho que já devo ter debulhado esse assunto de envelhecer.
Mas é que não aguento ver tanta gente tentando tirar suco de pedra, se rasgando em tentativas patéticas de virar um protótipo de si mesma, se escravizando nas concepções sexistas e machistas de que as mulheres devem ser eternas Lolitas.
A maturidade me encanta e vejo em uma mulher madura uma beleza tão profunda que varre feito pó toda a exuberância física das muito jovens.
Vou mentir e dizer que não puxo o rosto na frente do espelho? Que não olho com olhinhos maldosos os meus joelhos?
Não vou.
Porque minha auto estima foi mutilada muitas vezes, como fazem com todas as mulheres desse planeta.
Porém as que, com esforço, conseguiram manter a personalidade em meio à tanto culto à robôs, são felizes, sexuadas e livres, mesmo quando a biologia diz que na menopausa tudo acaba.
E é dessa turma que faço parte.
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