terça-feira, 21 de abril de 2015

Adeus, foi ótimo!


Quando estamos em um emprego legal, ganhamos bem, temos uma certa estabilidade, dias péssimos, ruins, melhores, maravilhosos, altos e baixos, quase nunca reconhecemos que é o melhor emprego do mundo, certo?
Quase nunca nos arriscamos muito, quase nunca saímos pulando de alegria à cada final de expediente, tampouco abraçamos as pessoas e dizemos à elas "puxa, tenho um emprego lindo."
Dou esse exemplo para ilustrar o que penso das pessoas que sabem que irão morrer em breve e a sua relação com o tempo que lhes resta.
Enquanto temos esse emprego e temos uma expectativa de vida longa, somos como devemos ser: seres humanos. E por sermos humanos: inquietos, insatisfeitos, vivendo menos do que deveríamos, arriscando menos, gozando menos a vida.
Uma pessoa que não terá que vivenciar no futuro todo o drama que a vida representa, acaba por se agarrar à ela e fazer da mesma um cenário muito mais iluminado do que realmente é.
Esses dias, li sobre uma menina inglesa que deixou uma mensagem de milhares de palavras, atrás de um espelho, no momento que descobriu um câncer terminal, aos treze anos.
Lindas as palavras, mas ao meu ver cheias do ideal que criamos quando perdemos alguma coisa.
O fato de ter que partir antes do tempo cria uma bruma de positivismo em relação ao que se está prestes à perder.
Quem está para partir precocemente, e sabe disso, de repente enxerga todas as alegrias de viver e esquece as mazelas da existência, pelo simples motivo de saber que, sim, em qualquer percurso, por mais duro que ele seja, vamos encontrar flores, pássaros, cheiros maravilhosos, vistas estupendas, brisa nos cabelos e no rosto.
E parar de ver e sentir tudo isso, por mais que os pés estejam cheios de calos, é triste. Encerrar os passos, secar o suor, desafoguear o rosto e estancar o prazer de se movimentar é ruim demais, por mais que as nossas pernas doam.
Portanto, mesmo eu não estando à beira da morte vou arriscar um conselho, um conselho de quem não está à beira da morte, mas tem consciência de que a morte vive à espreita, pelo simples fato de estar viva.
Um conselho que não é dramático, nem radical, que é como defino essas mensagens de quem está de cara com a sua finitude.
Não acredito que devemos nos jogar na vida, mas nos permitir mais.
Não creio que devemos ler os mil livros, ver a centena de filmes, cair de boca em festas, viagens, saltos de pára-quedas, chutes de baldes, aventuras sem limites.
Penso que é preciso soltar o arreio que prende a nossa boca e procurar ser mais livre em cada pequena atitude.
Não estipular regras em relação aos prazeres acessíveis e simples como comer um grande doce, beber uma cerveja gelada, dormir até mais tarde, ir ao cinema no meio da tarde.
E não esperar que seja o fim de semana para se permitir um naco de felicidade.
Se permitir ser, não com o revólver apontado para o rosto, mas com a certeza de que temos um fim, mas, que se Deus quiser, menos próximo.
Já vi filmes onde os velhinhos ficavam muito loucos e desesperados para sugar a vida quando descobriam que estavam no final.
Para mim não é isso.
É muito mais do que essa febre de positivismo, autenticidade e quebra-quebra de regras e limites.
É consertar, sem quebrar, cada parte nossa que se prende à infelicidade.
Sem drama, nem mistério.
Nem desculpas.
Finalizar o que nos atormenta, permitir o que nos alimenta, mesmo sendo pecado perante os outros, mesmo nos deixando um pouco gordos ou menos perfeitos.
E sendo perfeitos ou não, um dia receberemos a conta.
E devemos pagar sorrindo, sem culpa.
Com a certeza que foi o dinheiro mais bem gasto do mundo.
Obrigada, o serviço foi ótimo.
Adeus.

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