domingo, 19 de abril de 2015
A Verdade
A verdade é uma das roupas mais desconfortáveis para se usar quando o tempo lá fora é de temporal de cinismos, bajulações intencionadas e uma necessidade absurda e obsessiva de se manter na superfície, flutuando no mar traiçoeiro do "tudo bem", "deixa pra lá", "eu não me importo."
Ninguém mais fala a verdade, pois falar a verdade significa responder que não, não está nada bem, quando alguém pergunta sem a mínima vontade de saber alguma coisa, mas no piloto automático das relações numerosas e fugazes.
Aparece lá em casa, bom te ver, sinto muito, viraram mantras robotizados e sem sentido ou sentimento, de seres que querem se inserir no contexto, mas não estão nem aí para as particularidades de cada elemento que o compõe.
Pois bem, cansei.
Não me interessa mais ser boazinha, agradar, não dar trabalho.
Não sou mais criança gordinha que engolia as verdades não ditas, disfarçadas de quilos de açúcar, para não ser marginalizada em uma escola alemã nazista, em uma família que desligava a luz e deixava às escuras quem ousasse ficar acordado além do horário estipulado.
Se ser grossa é dizer a verdade, estou mais grossa do que dedo destroncado.
E ando me sentindo muito bem, obrigada!
Não gostei? Falo.
Não espero o ressentimento virar canivete escondido no bolso, pronto pra rasgar e dilacerar o outro com atitudes sanguinárias emolduradas por um sorriso branco.
A verdade é mais dura, mas é muito mais imaculada.
Escondê-la dentro de si, nos faz rabugentas, vítimas, ressentidas, chantagistas emocionais.
Muito mais difícil dizer que não se gosta disso ou daquilo, do que se deitar de lado em um sofá, feito diva dos anos cinquenta, com lágrimas borbulhando, sobrancelhas arqueadas e cara de quem quer vomitar, mas não consegue.
Mas é muito mais honesto.
E bonito.
Ser verdadeira pode ser confundido com mau humor, TPM, insanidade.
Ser verdadeira pode ser confundido com excentricidade, deslocamento e até loucura.
Mas seremos a nossa própria companhia para o resto das nossas vidas.
E, por favor, que possamos nos reconhecer.
Nos respeitar.
E nos amar.
Porque ninguém o fará melhor.
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