quarta-feira, 15 de maio de 2013

Mulher Iluminada


O lustre era lindo.
A mulher, esguia, esticava o corpo nu, na intenção de manter, com seus braços longos, a pequena cúpula iluminando o ambiente.
Presente de mãe.
Estimado. Era ligado não para iluminar, mas para encher os meus olhos e o meu coração de algo deixado no útero, algum calor perdido, mas não esquecido.
Quebrou-se. Sem concerto.
Dias passaram sem aparecer a coragem  para se desfazer da mulher que me acalentou nas noites e nos dias de chuva, mas que partida, repousava em desuso em um canto da lavanderia.
Olho pela janela o saco preto que abriga os braços que já seguraram a luz da minha sala. Antes que eles sejam definitivamente inutilizados pelo triturador de lixo, fico ali, pensando o motivo de ter gostado tanto de algo  inanimado, logo eu, tão desapegada de coisas.
É quando ele chega.
Barba branca por fazer, boné, bolsa transpassada no corpo, pele curtida do sol. Mexe com desinteresse automático nas sacolas, jogando coisas, batendo latas, com gestos rápidos, brutos, intrépidos.
Até que repousa os olhos nos braços que despontam do lugar escuro em que se encontram.
As mãos dele suavizam, estacionam na ânsia, abrindo o nó que esconde algo, com cuidado, respeito.
Meu coração acelera na janela.
O corpo delgado, de ferro fundido, vai se revelando aos poucos e as mãos enrugadas viram mãos de amante, que acariciam cada curva ainda intacta, analisam cada ruptura, descobrem cada machucado.
O corpo dele, antes tenso, rijo pelo trabalho nada louvável, agora se desfaz em um homem que sabe mais do que pensam que ele sabe, que conhece mais do que aparenta e que sente mais do esperam que ele sinta.
Fica imóvel, de costas e não posso ver os seus olhos. Mas as costas, antes eretas, curvam-se um pouco, como todos nós nos curvamos na presença de algo bonito.
E a minha linda mulher, antes de partir nas mãos de um estranho, ainda consegue me dizer coisas bonitas: "a vida é um mistério, ora lindo, ora terrível. Estou partindo junto com aquele que ninguém vê, mas que me viu com os olhos que muitos não têm.Sou um pedaço de ferro quebrado que talvez volte ser o que era, quem sabe. Ou vire outra coisa mais linda, mas feia ou siva para muito mais do que uma simples luz de sala. Para noites solitárias, cheias de lembranças e saudades. Para choros perdidos, mas não esquecidos. Para segurança no breu da noite. Ou talvez eu apenas sirva para mais um dia de fome saciada.Quem sabe? Não és tu a conhecedora de todos os mistérios e milagres e esses são para a tua próxima viagem".
Sai o homem carregando no colo a mulher iluminada.
Tivemos, eu e ele, algo em comum em nossas vidas.


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