sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Te amo, criança



Ele veio, assim, do nada, chegando de mansinho, cabelos suados e colados no rosto de tanto pedalar a bicicleta cinza e bonita.
- Oi.
- Oi.
A bicicleta tomba de lado na grama recém molhada pela chuva de verão. O corpinho meio desengonçado, roliço, comprido nas partes erradas, rostinho de bochechas proeminentes e dentes de leite, senta ao meu lado.
- Como é o nome dele?
- É Lupin - respondo acariciando a cabeça enorme e ruiva do meu cão sem raça.
- Que lindo! Eu quero um igual de Natal.
- Tu acreditas em Papai Noel?
- Claro! Vou pedir quatro presentes.
A mãozinha ainda lembra aquela que segurava o dedo da sua mãe - suponho - ao mamar no peito, e agora se apoia no meu joelho direito. Olho com amor para a mão que necessita de afeto, mesmo um afeto desconhecido como o meu.
- Que bom! E quais são os presentes?
- Hum...deixa eu ver. Uma pista do Hot Wheels, uma bicicleta de 4 marchas e um video game.
- ... e o quarto presente? Ah, já sei, uma escrivaninha.
- ...
- Eu não tenho um irmão porque ele iria gastar todo o dinheiro do meu cofrinho com um enxoval só para ele.
- Não, acho que não, tiro uma mecha de cabelo da testa suada. Mas e o quarto presente? Ainda não sei o que é.
- Uma escrivaninha.
- Sério?
- O que é uma escrivaninha?
- (risos) deixa pra lá.
- E as férias? Começaram?
- Sim, mas repeti o ano.
- Mesmo?
- Por que? Não posso repetir o ano?
- Pode.
- Eu sei, sou muito novo para a segunda série, só tenho sete anos e odeio matemática. Eu vou lá em casa pedir pra minha mãe para ficar mais um pouco aqui na praça. Tu espera?
- Claro, vai lá.
- Eu adoro o Lupin e acho que ele gosta muito de mim.
Impossível não gostar de ti, criança. Doce, fresca, com os olhos ainda castos para as mazelas do mundo. Com a fala ainda espontânea, simples, direta. Com a mão pronta para repousar naquele que, sabes por instinto, recebe a tua leve mão com honra e orgulho. Neste breve momento te quis filho, para abrigar tamanha fragilidade nos meus braços sempre prontos para a beleza pura do mundo. Peço a Deus que ceda parte dos anjos que chamo, todos os dias, para cuidar dos que amo. Que vão à ti, criança querida, te peguem pela mão, te guardem e te mantenham igual como és, mesmo que lá no fundo, pelo resto da tua vida.

2 comentários:

  1. Muito lindo...simples e emocionante...
    Parabéns, Mônica Dahlen, pelo "dom" que, com tanta pureza, divides conosco!

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