sábado, 15 de dezembro de 2012
Despedida
Meu sogro morreu.
Minha sogra foi morar com a minha cunhada.
O primeiro passo.
Suas coisas ficaram todas no antigo apartamento recheado de lembranças. Roupas a serem doadas, quartos em demasia para uma única pessoa. Eletrodomésticos que fizeram carinho em forma de bolo, agrados disfarçados de suco são destinados ao desuso.
Hora de desocupar o lar que foi de dois, que foi palco de tanta coisa que na correria dos filhos não tem, assim, tanta importância.
Tralhas para serem distribuídas entre todos. Cada xícara comprada com gosto para ser usada com cuidado vira despojo, fardo a ser dividido.
E os olhos que já viram muito ainda precisam ver um tanto mais. Precisam ver cada bonequinha de porcelana que um dia foi colocada na prateleira com afeto, ser considerada um pedaço de vidro pronto para ser reciclado.
E ela, absorta, vulnerável, dependente, deixa sua vida inteira ser remexida, desconsiderada, diminuída.
Porque aquela "coberta de mesa" tão estimada, usada nas horas especiais da família virou estorvo na sede insaciável de se resolver tão praticamente a vida.
Porque a vida não pode parar, mesmo quando quem a gente ama grite em silêncio que estamos indo muito rápido e que mais rápido ainda pode ser a sua partida e que ficaremos boquiabertos se perguntando o porquê de não termos sentado um pouco, escutado mais.
Porque não custa nada segurar por mais tempo as mãos de quem nos segurou por tanto tempo nos seus braços. E esses braços que hoje são mais fracos foram fortes o suficiente para apagar as nossas preocupações. Mesmo elas sendo sobre namoros bobos, faculdades que não nos serviram para nada, trabalhos temporários.
E em cada peça existe um Adeus escondido.
Que é prematuro.
Ao menos no tempo dela.
E o tempo dela, ah, não é o mesmo tempo do mundo.
E o que importa esse mundo quando se tem um mundo de coisas bonitas para alimentar a nossa alma?
Coisas que são tão singelas quanto magnânimas e que não representam números nem mesmo ganhos. Apenas acréscimos na única razão de existirmos: o amor.
O segundo passo.
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