Fazia algum tempo que meus horizontes não se ampliavam, que minha paisagem mudava pouco e que meus pés não pisavam solos distantes. Os vôos longos não levam somente o nosso corpo para longe, mas nos obrigam a mudar, nos tiram da rotina e nos transformam em observadores da rotina alheia, dando-nos a chance de exercitar um Eu diferente daquele que somos todos os dias do ano. Fui, por doze dias, alguém que eu havia esquecido que poderia ser. Alguém que toma chuva sem se preocupar em molhar a roupa e os cabelos, que come o que quer sem se preocupar com o peso, que inicia uma conversa com pessoas desconhecidas em um bar, que ri mais e que leva tudo mais na esportiva. Fui aquela que se esconde dentro de mim, pois as imposições do dia a dia afugentam a originalidade da alma. Me lembrei de como gosto de banho de banheira e me perguntei o porque de não ter uma. Por que deixei para trás o prazer intenso das bolhas de sabão, estourando na superfície quente da água, em troca da insipidez do chuveiro? Me lembrei de como gosto da diversão ingênua dos parques, da sensação infantil de gritar na Montanha Russa, de comer doces coloridos e comprar bichinhos de pelúcia. Redescobri coisas simples como a importância de fazer novas amizades. Renovei a fé em mim mesma ao ouvir que falo bem uma língua que julgava ter esquecido, ao compartilhar riscos, interpretar mapas que nunca fiz questão de entender. E, acima de tudo, convivi e conheci mais as pessoas que amo, mas que vejo menos do que gostaria, pois todos corremos cegos, vendados pelo poder dos horários. Não podemos ser sempre o que queremos, a vida não é como idealizamos. Mas, temos que, vez ou outra, achar um meio de resgatar aquela parte de nós que pega nosso lado mais leve, mais solto, mais feliz, e o chama para brincar.

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