domingo, 6 de dezembro de 2015
Quando o sol queima
Fui uma pessoa de falar muito pouco a respeito do meu próprio desconforto e tristeza em relação às atitudes das pessoas que eu convivia.
No início da vida por medo, pois quando se estuda em uma escola onde um dos métodos de ensino é a opressão, o silêncio é pré requisito e o conformismo uma dádiva.
Enquanto amadurecia e morava com pais e irmã, a falta de coragem para enfrentar certas injustiças era uma forma de respeito e respeito na minha casa era boca fechada para discordâncias e atitudes medidas com régua.
Pois bem, cresci e levei comigo essa bagagem pesada sob os ombros.
Essa que vem cheia de ideias erradas de que para ser amado deve-se agradar à todo mundo e que falar o que machuca é coisa de gente chata.
Essa que vem cheia de ideias erradas de que o sofrimento pode ser medido pelo julgamento dos outros.
Eu posso sofrer com algo que outras pessoas tiram de letra e isso não me faz pior ou mais fraca do que alguém, só representa a minha maneira particular de sentir a vida.
E essa maneira pode mudar de acordo com o período que estou vivendo.
Posso ter sido forte até agora para coisas que simplesmente não consigo mais digerir e posso me tornar um gigante para outras em que minha pequenez me tornava fraca.
E não gosto que me julguem por isso.
Gosto muito do exemplo do bebê que chora por motivos risíveis aos adultos e acho medonho adultos que riem de seus próprios filhos por julgarem pueris e bobos os seus pequenos sofrimentos.
O sofrimento não é medido em escala richter e o meu terremoto avassalador pode ser apenas um tremular do oceano para tantas outras pessoas.
E vice e versa.
Amar alguém é, acima de tudo, respeitar o seu jeito de ser.
Então, ao amarmos nossos filhos, namorados, amigos, seria ideal que conseguíssemos fazê-lo sem imposições pessoais sobre o modo particular como cada um deles lida com os seus próprios problemas, mas ajudá-los a lidar da melhor forma possível com os mesmos.
Uma das minhas filhas sofria desesperadamente aos tirar notas abaixo de oito na escola e queria um boletim recheado de dois dígitos.
Eu sabia que era um absurdo tamanho sofrimento por esse motivo, mas eu tentava aliviá-lo e não ridicularizá-lo ou julgá-lo.
Era um sofrimento dela e ponto e seria cruel da minha parte lembrá-la que ela tinha olhos, pernas, braços, família, amigos e uma casa para morar, pois eu não estaria diminuindo a sua mágoa, mas mostrando o quão injustos eram os seus sentimentos.
Então, eu não os diminuía, apenas tentava fazê-la entender que notas dez eram o máximo, mas ninguém precisava do máximo para viver feliz.
Eu tentava aliviar a dor sem julgar o motivo.
Só eu sei o quanto sofro pelas imensas tristezas e misérias do mundo, pois infelizmente (ou felizmente) nasci sensível demais, porém nada impede que eu tenha uma crise de choro ao descobrir um rasgo irreparável no meu vestido preferido, me entristeça com um fim de semana de folga em dias chuvosos ou fique deprimida por conta das injustiças que sofro.
Ou simplesmente fique apenas triste sem motivo algum.
Se alguém sofre e calha de ser alguém que amamos, melhor do que entender e julgar a causa, é estender a mão, é oferecer o colo, os ouvidos e o coração.
Pois o sol é maravilhoso, mas também é capaz de arder e queimar.
E não é um discurso que alivia uma pele queimada, mas uma mão amiga para espalhar um bom hidratante nas partes que a nossa mão não pode alcançar.
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