terça-feira, 7 de julho de 2015

Apenas Eu


Desde o primeiro grito, na solidão do sentir-se absolutamente frágil, exposto e assustado no ato de nascer, estamos completamente sós.
Porque as mãos que nos seguraram, nos mediram, nos limparam e nos envolveram em cobertores, não foram capazes de apaziguar o nosso diminuto coração que disparou em surpresa e terror à novidade que nos engolfou feito onda de mar furioso.
Nem mesmo a mulher que nos ofereceu os seios e os braços não foi capaz de, naquele exato momento, compreender profundamente a grandiosidade e a força dos nossos novos sentimentos em um mundo novo.
Ser sozinho emocionalmente é absolutamente inerente à nós, seres humanos, mesmo que estejamos sempre e para sempre cercados de pessoas.
Viver sentindo, não apenas o viver do comer e do respirar, é uma experiência única e solitária.
Já chorei, rolando entre os lençóis úmidos de lágrimas, com coisas que se eu contasse fariam muitos estranharem.
Já ri de outras que me fizeram passar por louca, já sofri com sofrimentos pesados que poderiam ser leves se não fossem sentidos por mim, mas por aqueles que tem um filtro mais potente às intempéries do mundo.
Já quis, desesperadamente, que quem eu amo compreendesse o significado de algo que, para ele, não significava quase nada.
Fiz dezenas de cartas e bilhetes dizendo o que se passava no meu coração na tentativa inútil de me fazer legível.
Ter quem pegue a nossa alma no colo, a acaricie, a beije e a cure não é possível nesta vida que vivemos.
É possível ter esse colo que nos passa o calor quando estamos com frio.
É possível ter abraços, beijos e ouvidos que nos acalentem e nos amem no ato de se doar e de tentar se colocar no lugar do nosso sofrimento, mas estaremos sozinhos com a verdade absoluta do nosso coração.
Somos filhos, somos pais, amigos, amantes, namorados e esposos uns dos outros e queremos o bem de quem escolhemos para amar, mas o bem que se limita por não sermos iguais e, portanto, não termos a mesma leitura dos acontecimentos e das ações que nos cercam.
Por isso, para mim, um dos maiores atos de amor é o não julgamento.
É respeitar cada parte da pessoa que amamos, mesmo que seus sentimentos sejam algumas vezes estranhos para nós.
É entender que o choro e o riso é de cada um e que não somos donos do manual (se ele existisse) que ensina a hora certa para ser feliz ou triste.
Por isso, mesmo quando estamos rasgados por dentro, com uma chuva torrencial de lágrimas inundando nossos olhos e escorrendo pelo nosso nariz, a pessoa que fará para sempre diferença na nossa vida é aquela que compreende e acalenta a nossa dor. Sem censura, sem frases de "eu não disse?", sem julgamentos.
Querendo estar o mais próximo possível da nossa alma, sem nunca adivinhá-la por inteiro, mas a tocando e a engrandecendo com a intenção de estar ao nosso lado. 


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