segunda-feira, 11 de março de 2013

Planeta Liso


Venho perdendo a voz.
Fico um pouco muda.
A cada ruga no rosto.
Porque neste mundo tão voraz pela juventude eterna, viro também invisível dentro dos dias que se tornam anos.
Jovens são letras maiúsculas neste alfabeto injusto que é a humanidade.
Uma órbita onde gravitam peles brilhantes e firmes que pela lei máxima da agradabilidade são perdoadas de  quase todos os pecados.
Porque pecar, nesta esfera azul e bonita, é ser feio, pobre, gordo, velho.
O resto é perdoado quando se tem pouca idade ou bolso pesado. Ambos então, são garantia de divindade, no Planeta onde herói é Big Brother e deus é quem ganha fortuna fingindo ser outra pessoa nas telonas ou suando em um campo verdinho de grama. E velhice, neste caso, é morte súbita, veto, afastamento, declínio e esquecimento. Um ou outro fica para contar a sua linda história e, muitas vezes, se transformar em outra pessoa, uma máscara horrenda de si mesmo, uma aberração de plásticas e preenchimentos.
Mas o bolso, tal qual a juventude, é detentor de milagres. Um velhinho acabado é filé macio nas garras das louras platinadas com muito peito e pouco cérebro. Uma artista beirando o nanismo e a senilidade, coleciona jovenzinhos com tipo de bacana e os exibe como mascotes recém saídos do banho.
E na minha invisibilidade e mudez é que consigo sentar na primeira fila para assistir à esse triste espetáculo bizarro, onde os malabaristas vestidos de palhaço, jogam os valores pro alto, feito bolinhas de plástico que se misturam, rodopiam e fazem a platéia anestesiada sorrir.
Usufruo do meu silêncio e perscruto a minha alma , confessando à mim mesma que ainda tenho muito para ver, mesmo não querendo. 
Porque neste mundo tão voraz pela juventude eterna, a morte, apesar de certa, jamais é aceita. Pois para os que muito a temem, talvez seja o momento de se encontrarem com tudo aquilo que vieram evitando por toda a vida.
E pode ser que não seja nada agradável. 

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