sexta-feira, 22 de março de 2013

Lotação


Recém sentada no banco do Táxi Lotação, minha viagem ao "exterior" começa.
Porque no volante do carro somos motoristas sem tempo, sem paradas. Somos transporte e não gente.
Sento na janela e começo a degustar cada momento de uma cidade que não parece a minha, quando a pressa não permite digerir cada detalhe, cada traço de vida.
A senhora na janela, olhando o tráfego, rebobina os meus pensamentos e lembro de um apartamento pequenino, onde uma senhora que colecionava plantas e conversava com os passarinhos, via um pouco da vida passar na calçada. As persianas gastas, o olhar complacente, os óculos de grau me trazem o cheiro doce de uma avó que eu deveria ter sido mais próxima.
O barulho forte do motor me arranca lembranças e a parada já ficou para trás.
As pessoas andam apressadas, o frentista cai na risada, um cão magro chafurda o lixo em busca de migalhas. 
Mulheres imensas estão sentadas em cadeirinhas de praia na calçada, o mendigo raquítico passa por elas. Ninguém se olha.
A moça bonita faz um grupo de homens virar seus pescoços, a moça de cabelo curtinho veste um uniforme branco e fuma sem parar. 
Nas praças tem algumas crianças brincando, nas paradas tem gente esperando.
Os jardins estão sendo regados, alguns abraços estão sendo dados no meio de tanta gente que não se enxerga.
São tão singelas as vivências, tão fáceis de entender quando misturadas, quando assistidas. O movimento não pára. A dor, o amor, o tombo, a vitória, a decepção, a alegria, a beleza, a limpeza, a sujeira.
As vidas. 
Alheias.
Partidas.
Inteiras.
Chega o momento de eu descer.
Me torno uma delas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário