quinta-feira, 10 de março de 2016

Muito prazer, sou um texto inacabado.

O meu jardineiro é meu amigo antes de ser meu jardineiro.
Pessoa rara em honestidade, caráter, bondade.
O conheço há quatorze anos, quando jardinando a casa que seria minha, abriu as portas para mostrar cada cômodo desocupado dos vários que guardariam os meus passos, o meu corpo, as minhas alegrias, as minhas lágrimas, os meus amores, a minha vida.
Na última visita rompeu em lágrimas e me surpreendeu.
Olhou nos meu olhos e disse que tinha vivenciado a coisa mais triste da sua vida. Vida dura eu bem sei, com começo árduo tendo apenas a roupa do corpo e a esperança guardada no bolso.
Sempre sorridente e alegre, pela primeira vez vi o seu rosto se contorcer em tristeza e os lábios virarem para baixo ao dizer que tinha perdido o seu melhor amigo, que tinha visto ele bater as asas em espasmos e deixar para sempre o corpinho verde de papagaio.
Era o filho que nunca teve, era a dor simples e banal para tantos, mas profunda e dilacerante para ele.
A dor dele, a minha, a nossa que será desigual sempre, mas jamais menos significante.
Um bicho, um amor, uma conquista, um degrau que some e fica para trás depois de nos deixar pasmos na relutância em aceitar que temos que enfrentar todos os dias a mutilação pequena ou grande da nossa alma. A regeneração grande ou pequena da nossa alma.
E que vamos ter que caminhar com pedaços a menos e rugas a mais. Com pedaços a mais e insônias a menos. Com uma forma diferente de existir depois das perdas, uma forma lapidada na consciência da brevidade dos momentos felizes ou tristes e da necessidade de construir lembranças, saudades, pontes, aprendizado.
Vestimos o coração com as pessoas, os afetos, o conforto, as alegrias que nos fizeram e nos fazem Brunas, Andréas, Fábios, Renatas, Carlos, mas o tempo de se reinventar sempre chega.
E ele pode demorar dois ou trinta anos, mas vamos ter que lidar com o fato de que tudo muda a todo o instante e nas dores e regojizos vamos colocando letras no nosso pequeno alfabeto, vamos colocando significados e sentido no que somos e, no final das contas, vamos saber que seremos bem mais do que nossos simples nomes.
Como um carro com um extenso e infindável reboque que carrega coisas com letras maiúsculas e minúsculas, palavras que nos fazem sentir dor, que nos enchem de prazer e felicidade e que ficam para sempre atreladas à nós.
Papagaio, parto, separação, cão, gato, demissão, viagem, casamento, amizade, começo, fim, meio.
Com cicatrizes visíveis ou não, com alegrias plenas ou partidas, com sonhos feitos e desfeitos, traumas, boas e excelentes lembranças, passado, presente, futuro.
Prazer, sou a Mônica, mas muito mais do que você possa sequer imaginar, saber ou conhecer, pois sou várias letras com diferentes significados.
E amanhã irei renascer.

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