Ela tinha
muitas preocupações, ele sabia.
Com a
casa, os filhos, o trabalho, o pai doente que exigia atenção diária e quase
irrestrita.
Eles
brigavam, divergiam, discutiam, eram normais, afinal.
Mas o
peso daquelas últimas palavras ditas, as quais ele tentava obliterar o
significado, ainda retumbava no seu cérebro como marteladas que lhe tiravam a
concentração nas tarefas mais simples.
Palavras.
Ditas de forma ríspida, gritadas, cheias de ódio.
De onde
havia saído todo aquele rancor que avolumou o peito dela e foi despejado com os
olhos semicerrados, com uma vontade voraz de machucar?
Ele era
tudo aquilo que ela havia vociferado? Se percebia tão pouco, em todos esses
anos, para pensar que certos sentimentos estavam destinados às pessoas bem
menos felizes do que os dois?
Ela lhe
dizia verdades, escondidas nos anos de cumplicidade ou escolhia, catava feito
pedras brutas, palavras que pudessem construir um
diamante monstruoso que ela ostentaria na intenção
de enfraquecer qualquer qualidade que ele pudesse pensar serem suas?
Não
saberia, nem com toda a raiva do mundo, construir um ser tão feio como ela o
construiu, tão egoísta nas suas próprias necessidades e tão vazio de virtudes.
Não
conseguiria, mesmo quando o amor navegava por águas turvas, macular aquilo que
haviam construído para eles, aquele mundinho que considerava único no universo
de casamentos infelizes.
Mas ela
disse. Estava feito, não tinha como voltar no tempo e esquecer o que fora formulado,
mesmo em um momento onde a razão havia se dissipado em prol da fúria, da
explosão seca e rápida.
Motivos
todos têm, ele também os tinha. Tantos problemas para serem resolvidos. Mas ele
cuidava para que eles não tomassem o espaço que deve ser preservado, defendido,
jamais penetrado.
E o tempo levou consigo as acusações duras. Foi ficando fraca a imagem dela, a voz alterada, a batida da porta.
Os filhos cresceram e passaram a exigir menos, a casa ficou mais limpa, pois não abrigava mais brinquedos, carrinhos, tampouco tantas panelas sujas. Ela foi promovida, conseguiu pagar alguém para ficar com o pai e ambos tiveram a chance de fazer mais coisas juntos.
Comemoraram mais um aniversário de casamento.
Todos riram e relembraram os bons tempos, nas imagens projetadas no telão.
A perenidade da relação era exemplo para amigos e familiares, a felicidade, a cumplicidade.
Porém, dentro dele uma porta havia sido fechada.
E nunca mais conseguiria ser aberta por ela.

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