quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Portas




Ela tinha muitas preocupações, ele sabia.
Com a casa, os filhos, o trabalho, o pai doente que exigia atenção diária e quase irrestrita.
Eles brigavam, divergiam, discutiam, eram normais, afinal.
Mas o peso daquelas últimas palavras ditas, as quais ele tentava obliterar o significado, ainda retumbava no seu cérebro como marteladas que lhe tiravam a concentração nas tarefas mais simples.
Palavras. Ditas de forma ríspida, gritadas, cheias de ódio.
De onde havia saído todo aquele rancor que avolumou o peito dela e foi despejado com os olhos semicerrados, com uma vontade voraz de machucar?
Ele era tudo aquilo que ela havia vociferado? Se percebia tão pouco, em todos esses anos, para pensar que certos sentimentos estavam destinados às pessoas bem menos felizes do que os dois?
Ela lhe dizia verdades, escondidas nos anos de cumplicidade ou escolhia, catava feito pedras brutas, palavras que pudessem construir um diamante monstruoso que ela ostentaria na intenção de enfraquecer qualquer qualidade que ele pudesse pensar serem suas?
Não saberia, nem com toda a raiva do mundo, construir um ser tão feio como ela o construiu, tão egoísta nas suas próprias necessidades e tão vazio de virtudes.
Não conseguiria, mesmo quando o amor navegava por águas turvas, macular aquilo que haviam construído para eles, aquele mundinho que considerava único no universo de casamentos infelizes.
Mas ela disse. Estava feito, não tinha como voltar no tempo e esquecer o que fora formulado, mesmo em um momento onde a razão havia se dissipado em prol da fúria, da explosão seca e rápida.
Motivos todos têm, ele também os tinha. Tantos problemas para serem resolvidos. Mas ele cuidava para que eles não tomassem o espaço que deve ser preservado, defendido, jamais penetrado.
E o tempo levou consigo as acusações duras. Foi ficando fraca a imagem dela, a voz alterada, a batida da porta.
Os filhos cresceram e passaram a exigir menos, a casa ficou mais limpa, pois não abrigava mais brinquedos, carrinhos, tampouco tantas panelas sujas. Ela foi promovida, conseguiu pagar alguém para ficar com o pai e ambos tiveram a chance de fazer mais coisas juntos.
Comemoraram mais um aniversário de casamento.
Todos riram e relembraram os bons tempos, nas imagens projetadas no telão.
A perenidade da relação era exemplo para amigos e familiares, a felicidade, a cumplicidade.
Porém, dentro dele uma porta havia sido fechada.
E nunca mais conseguiria ser aberta por ela.


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