Estamos bem. Apenas alguma coisinha lá no fundo dói, como uma mínima lesão muscular, que só é sentida com o esforço de certos movimentos. Ela não impede nossa vida, mas volta e meia pensamos o que poderia ter provocado o pequeno dano. E protelamos uma averiguação mais profunda, pois a vida está boa, afinal. Mas começamos, aos poucos, a mudar de posição, alterar nosso movimento, evitar esforços para não darmos de cara com o desconforto escondido. Talvez, se não falarmos, se desconsiderarmos, se evitarmos, a dorzinha vai embora e com ela aquele monte de perguntas a respeito de quando e porque ela começou. E se aumentar? E se doer mais? E se tivermos que mudar hábitos, encerrar vícios, se despedir de coisas que, apesar de nos machucar, nos habituamos a gostar? E vamos levando. E a dor ou as dores que deveriam ter sido tratadas aumentam e quando vemos, estamos impossibilitados de, sequer, dar mais um passo. Então nos desesperamos, chutamos baldes, choramos, nos descabelamos. Como foi que tudo chegou a esse ponto? Por que a vida é assim? Pois é, agora já não adiantam mais pequenas mudanças, tratamentos leves. Agora vamos arrancar à faca o que incomoda, em meio à lamúrias de indignação. Todos serão culpados e o que era apenas para ser remediado, será remexido, extirpado. Pelo menos, depois que a tempestade passar, aprenderemos a considerar cada desconforto, por menor que ele pareça, pois temos que aprender a cuidar de nós mesmos com carinho, prestando atenção em cada pequena dorzinha que nos impede de ser plenamente feliz.

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